A alegria não chega apenas no encontro do achado, mas faz parte do processo da busca. E ensinar e aprender não pode dar-se fora da procura, fora da boniteza e da alegria. Paulo Freire

sexta-feira, 10 de março de 2017

Professor Nicolau Neto fala sobre simbologia do 8 de março, lutas femininas, conquistas e o papel da mulher

A Escola Estadual de Educação Profissional Wellington Belém de Figueiredo, em Nova Olinda-CE, que atende a alunos de três municípios (Altaneira, Nova Olinda e Santana do Cariri), promoveu durante todo o dia de quarta-feira, 08, uma série de atividades visando debater acerca do Dia Internacional da Mulher.

Entre rodas de conversas, exibição de vídeos, debates propostos e protagonizados pelo Grêmio Estudantil desta instituição de ensino acerca de temas que afligem a mulher na sociedade contemporânea, o professor e ativista das causas negras pelo Grupo de Valorização Negra do Cariri (Grunec), Nicolau Neto atendendo a convite, conversou com alunas e alunos acerca da construção e simbologia do 8 de março, das lutas femininas e suas conquistas, bem como dos desafios enfrentados ainda hoje pela classe feminina para sua afirmação em uma sociedade preconceituosa.

Nicolau iniciou sua fala discorrendo acerca da origem socialista do 08 de março, vindo a destacar a Segunda Conferência Internacional das Mulheres Socialistas ocorrida em 1910, em Copenhague, na Dinamarca e o papel decisivo de Clara Zetkin que junto a outras militantes deram os primeiros passos para instituir oficialmente um dia internacional das mulheres.

O professor, entretanto, explicou que não tinha a intenção de esgotar o assunto com tal referência, pois há registros de outros momentos anteriores e posteriores ao elencado. Todos eles tinham como participantes mulheres que dedicaram tempo na luta por igualdade econômica e política na sociedade, além de denunciarem a exploração e a opressão das mulheres.

Foram dessas lutas ainda que ecoaram gritos na defesa do voto feminino, da igualdade dos sexos e da autonomia das mulheres, como o que ocorreu em 1908 em Chicago, nos Estados Unidos. Foi nesse cenário, inclusive que tivemos a comemoração do primeiro dia da mulher. Nessa abordagem da construção do 08 de março como origem socialistas, Nicolau lembrou ainda da greve de 200 mil tecelãs russas que saíram as ruas de Petrogrado buscando aumento de salários e lutando contra a fome.

Em um segundo momento, o professor convidou as alunas Kezia Adjane (3º “A”), Flávia Barbosa e Millene Santos (3º “D”), Gabriela Alves (3º “C”) e Andrea Oliveira (Universitária do Curso de Letras da URCA) para participarem da roda de conversa. Entre os temas, destaque para a desigualdade de gênero, racismo, a misoginia, violência física e psicológica, representatividade feminina nos espaços de poder, empoderamento feminino, feminismo, machismo, legalização do aborto, os impactos que a reforma da previdência irá causar nas mulheres e lutas dos movimentos feministas no Cariri.
As alunas e os alunos demonstraram maturidade e uma capacidade crítica invejável nas discussões das temáticas propostas. As condições de trabalhos e o desemprego também foram frisados. As estudantes afirmaram que a classe feminina são as que recebem os salários mais baixos, mesmo exercendo, em muitos casos, os mesmos trabalhos que os homens.

Segundo elas, o Brasil atingiu índices alarmantes de desemprego e ele vem impactando principalmente as mulheres. Pois são as primeiras a serem alvos de demissão. Discursos preconceituosos e machistas foram lembrados, como por exemplo, aquele que afirmam serem elas as causadoras de onerar os setores de trabalhos ao engravidarem.

As alunas e alunos não pouparam críticas as reformas feitas e as em andamento pelo governo federal. A reforma do ensino médio, a escola sem partido e a reforma da previdência foram trazidas para a conversa, tendo como recorte a questão de gênero. Se a gente não discutir as desigualdades sociais que alimentam a sociedade na escola, ela perde o sentido.

Precisamos nos posicionar contra essas atrocidades que estão tentando nos impor. Não queremos morrer trabalhando e não chegar a aposentadoria, realçaram. O assédio moral, sexual, a cultura do estupro está em todos os lugares, por isso há necessidade de estarmos hoje clamando por justiça social, por igualdade de oportunidade e contra a retirada de direitos, disseram.

De igual modo a legalização do aborto que continua um tabu e enfrenta retrocessos no Congresso Nacional, com a proposta do Direito do Nascituro, que pretende criar obstáculos para que as vítimas de estupro possam abortar mereceu atenção delas/es. Para ela, o momento é importante para que haja uma discussão mais madura e que leve em consideração a ideia da mulher decidir sobre o seu corpo, sem o controle do Estado. É sabido que as mulheres sofrem cotidianamente várias violências e são alvos de discursos que as inferiorizam, mas é necessário que estejamos atentas para as particularidades, para as especificidades correlacionando-as para as questões de raça/cor.

Esses discursos e as situações elencadas aumentam consideravelmente quando nos reportamos as mulheres negras. Precisamos ter isso bem nítido, se quisermos de fato romper esse cenário desolador e construirmos uma sociedade mais humana.

O professor Nicolau trouxe ainda para a conversa as lutas das mulheres na atualidade, com destaque para as protagonizadas pelo Conselho Municipal do Direitos da Mulher Cratense (CMDMC) e a Frente de Mulheres dos Movimentos de Mulheres que esse ano tiveram como bandeira de luta Mulheres: Reforma da Previdência e Retirada de Direitos.

Na avaliação de Nicolau, o momento contrariou a grande maioria dos espaços de poder que se arvoram do Dia Internacional da Mulher para reforçar preconceitos e estereótipos, além de tecerem falsas homenagens apenas neste dia. As alunas e alunos da escola rasgaram o verbo e aproveitaram a oportunidade para reivindicar direitos.

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